25-09-2013Histórias e Memórias Os Portugueses Francisco Amorim
Os Portugueses
Francisco G Amorim
Faz tempo, lá pelos idos dos anos 60, descobri que para conhecer os portugueses “que deram mundos ao mundo”, deveria ter já lido o livro que me fez conhecer a índole e alma daqueles de quem eu sabia descender e pensava conhecer. Mas, até então, nunca havia encontrado explicação para o “estar no mundo”, durante tantos séculos. Foi Gilberto Freyre com o seu famoso livro “Casa Grande e Senzala” – mais tarde estupida e covardemente condenado e criticado – que me fez conhecer e compreender melhor a gente da minha “raça”, a posição do português e a sua marca deixada em todos os continentes. Não esqueço nunca uma frase do mestre Gilberto Freyre, quando se referia aos portugueses que ele visitara no interior de Portugal, gente humilde, simples, rija, quando dizia “adoro analfabetos”! São os “analfabetos”, os simples, os que têm garantido “o reino dos céus”. Antes disto foram talvez a Alda e o Ernesto Lara com os seus poemas, que ainda hoje conseguem arrancar humidade dos meus olhos, que me ajudaram a melhor ver o Outro. Agora um outro livro, “Um olhar para Portugal no Mundo”, do Prof. J. Paiva Boléo-Tomé, traz alguns elementos, novos para o olhar de incultos, que nos obrigam a, bem devagar, mastigar as páginas de feitos sublimes que conseguiram preservar a memória dos Portugueses no Mundo. Em finais do ano passado, neste mesmo blog escrevi sobre a memória dos portugueses na Indonésia, em ilhas distantes de tudo, infelizmente, chamado de civilizado. Ali se cultua com respeito e devoção a grandeza de alma daqueles que um dia lá chegaram em pequenas cascas de noz e os trataram como irmãos. De tudo o que este livro de Boléo-Tomé nos relata, evidencia-se uma das maiores obras, que em todos os tempos marcaram a presença portuguesa por TODO o mundo: as Misericórdias, os hospitais que foram das primeiras obras a serem criadas aonde chegavam os navegadores. Hospitais que nos fins do século XV foram organizados de molde a poderem, ainda hoje, servir de modelo de organização e eficiência, com objetivos perfeitamente definidos, sobretudo quando manda que nessas instituições sejam tratados, de igual forma, ricos e pobres, cristãos, judeus ou pagãos. E as Misericórdias espalharam-se por todos os cantos do planeta, com um sucesso ainda hoje bem real. A de Goa, fundada no primeiro quartel de quinhentos, onde se internaram até rumes (os muçulmanos nossos adversários na Índia) obra que espalhou o nome dos portugueses pelo Industão, e todo o Oriente; a do Rio de Janeiro, fundada de urgência em 1582 para tratar de marinheiros espanhóis que estavam morrendo de escorbuto; o primeiro hospital do Japão, fundado pelo jesuita Luis de Almeida em 1525, onde se criou uma autêntica escola de medicina – Nanban-Ryu-Igaku-Geka – e hoje de tal forma reconhecida que em 2009, em Oita, ilha de Kyushu, foi inaugurado o novo edifício do hospital, com toda a tecnologia moderna, mas mantendo o nome de Hospital Luis de Almeida. E foram centenas as misericórdias criadas pelos portugueses: Ceuta, Macau, Bahia, Luanda e sempre e onde conseguiam um pedaço de terreno para comerciar e tratar dos doentes. Duas pequenas histórias, ouvidas e vividas, me ascendem à memória, e que ilustram bem o tal “modo de estar” ou de “ser”. Lembro... Do que me contou um capelão do exército que tinha estado na Índia com tropas portuguesas. Nos hospitais indianos os párias, a última e mais baixa e pobre classe de gente daquelas paragens, gente desprezada, considerada imunda e lixo, quando adoecia, e adoeciam muitos porque viviam miseravelmente, eram confinados em isolamento e os médicos não se dignavam sequer visitá-los! Eram párias, e pária era quase abaixo de gente! Os médicos portugueses eram os únicos que o faziam sendo sempre objeto de reclamação dos colegas hindus! O próprio capelão lá ia todos os dias levar um pouco de consolação àqueles segregados, mesmo não sendo eles cristãos!
Em Luanda, um dia, acompanhei o grande ator Raul Solnado (que Deus o tenha), a visitar o Hospital Militar. O diretor, amável, foi-nos mostrar as salas de tratamento, de operações, as enfermarias, etc. e, à porta de uma delas estava postado um soldado, equipado e de arma na mão! O Solnado, como eu, achou aquilo estranho, e o diretor então explicou-nos:“ ali naquela cama – era uma enfermaria com umas oito camas todas com gente estropiada, pernas e cabeças engessadas, braços levantados com pesos, enfim um espetáculo de guerra – está um terrorista que foi apanhado numa operação”. E o Solnado, olhos arregalados: “Vocês tratam aqui dos terroristas, e ao lado dos soldados portugueses?” – “Tratamos.” – “E depois o que lhe fazem? – “Quando estiver curado mandamo-lo embora. Aquele, por acaso, é a terceira vez que é apanhado ferido e que nós tratamos.” O Solnado pareceu entrar num mundo irreal; pediu um café, forte, tanto mais que a seguir ia dar um espetáculo para os doentes, e não podia ir entristecido. Tinha que os fazer rir! Não dava para acreditar. Portugal em guerra, apanhava os inimigos feridos, tratava deles como se fossem portugueses e depois... deixava-os ir embora!!! Passa pela cabeça de alguém que qualquer outro povo – ingleses, franceses, americanos, espanhóis, etc. – fosse capaz de tais atitudes? Jamais. Coisa mesmo de português! Que estes poemas identificam: Primeiro, um pouco da grande poetisa de Angola, Alda Lara, médica, que morreu muito nova: Que o meu coração E agora um pouco mais do seu irmão, o Ernesto Lara Filho, também de Benguela:
Nesse tempo, Edelfride, Com quatro macutas a gente comprava Dois pacotes de ginguba na loja do Guimarães. Nesse tempo, Edelfride, com meio angolar a gente comprava cinco mangas madurinhas no Mercado de Benguela. Nesse tempo, Edelfride, montados em bicicletas a gente fugia da cidade e ia prás pescarias ver as traineiras chegar ou então à horta do Lima Gordo no Cavaco comer amoras fresquinhas Nesse tempo, Miau, (alcunha que mantiveste no futebol) nós fazíamos gazeta da escola coribeca e íamos os quatro jogar sueca debaixo da mandioqueira. Era no tempo em que o Saraiva Cambuta batia na mulher e a gente gostava de ver a negra levar porrada. Era no tempo dos dongos da ponte dos barcos de bimba dos carrinhos de papelão Como tudo era bonito nesse tempo, Miau! Era no tempo do visgo que a gente punha na figueira brava para apanhar bicos-de-lacre e seripipis os passarinhos que bicavam as papaias do Ferreira Pires que tinha aquele quintalão grande e gostava dos meninos. Era no tempo dos doces de ginguba com açúcar. Mais tarde vieram os passeios noturnos à Massangarala e ao Bairro Benfica. E o Bairro Benfica ao luar O poeta Aires a cantar (Meu amor da rua onze e seu colar de missangas...) Tudo era bonito nesse tempo até o Salão Azul dos Cubanos (*) e o Lanterna Vermelha - o dancing do Quioche. Foi então que a vida me levou para longe de ti: parti para estudar na Europa mas nunca mais lhe esqueci, Edelfride, meu companheiro mulato dos bancos de escola porque tu me ensinaste a fazer bola de meia cheia de chipipa da mafumeira. Tu me ensinaste a compreender e a amar os negros velhos do bairro Benfica e as negras prostitutas da Massangarala lembras-te da Esperança? Oh, como era bonita [essa mulata...) Tu me ensinaste onde havia a melhor quissângua de Benguela: era no Bairro por detrás do Caminho de Ferro quando a gente vai na Escola da Liga. Tu me ensinaste tudo quanto relembro agora Infância Perdida sonhos dos tempos de menino. Tudo isso te devo companheiro dos bancos de escola Isso e o aprender a subir aos tamarineiros a caçar bituítes com fisga aprender a cantar num kombaritòkué o varrer das cinzas do velho Camalundo. Tudo isso perpassa me enche de sofrimento. Diz a tua Mãe que o menino branco um dia há-de voltar cheio de pobreza e de saudade cheio de sofrimento quase destruido pela Europa. Ele há-de voltar para se sentar à tua mesa e voltar a comer contigo e com teus irmãos e meus irmãos aquela moambada de domingo com quiabos e gengibre aquela moambada que nunca mais esqueci nos longos domingos tristes e invernais da Europa ou então aquele calulu de dona Ema. Diz a tua Mãe, Edelfride, que ela ainda me há-de beijar como fazia quando eu era menino branco bem tratado quando fugia da casa de meus Pais para ir repartir a minha riqueza com a vossa pobreza.
E pensar, aliás, saber, que ainda existem muitos, muitos, com complexo de “vira-lata” que preferiam ser descendentes de ingleses, holandeses ou americanos! Algum deles fez um outro Brasil? Ou preocupou-se com os pobres, ou estendeu a sua mão branca a outra mão negra? O sonho de Luther King há muito, e em muito lugar, já se havia concretizado! Por quem?
07/09/2013 |